quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A FALÁCIA DO MARKETING PESSOAL

- Cartão de visitas sempre à mão!
- Não deixe o celular impresso no cartão de visitas; anote-o à mão na frente do paciente, isso vai fazer com que ele se sinta especial.
- Invista em blocos personalizados e diferenciados.
- Crie um e-mail corporativo, deixando o de servidores livres apenas para uso pessoal.
- Jamais use canetas de propaganda ou dessas baratinhas de papelaria.
- Não demonstre excesso de disponibilidade ou não será valorizado pelo seu paciente.
- Nunca marque uma consulta para o mesmo dia, a não ser que seja algo urgente.
- Restrinja os horários disponíveis na agenda e concentre os pacientes em horários próximos para dar idéia de que o consultório é movimentado.

Essas e inúmeras outras baboseiras são alguns dos mandamentos básicos de quem quer se "diferenciar" no mercado, segundo os gurus que costumam cobrar os olhos da cara por palestras sobre sucesso pessoal (e sempre aproveitam para vender seus livros, garantindo o próprio sucesso), e quando, do alto dos meus 25 anos, terminei a residência médica e resolvi investir no consultório particular, procurei segui-las à risca, não questionando muito sua eficiência. Investi mais do que podia em uma sala luxuosa em um edifício comercial bacana, fiz tudo como manda o figurino e, surpreendentemente, após um ano, o resultado foi... desapontador! Sem mais dinheiro para bancar a aventura, me recolhi à minha insignificância, realizei um belo prejuízo deixando a mobília cara com o ex-sócio e comprei uns móveis baratos em dez vezes sem juros para recomeçar em um lugar mais condizente com minha realidade. Como eu andava completamente quebrado, fui protelando todas as medidas às quais fui tão atento na minha primeira empreitada, até que me descobri protelando-as todas - sem exceção - até hoje, dez anos depois.
Mais ou menos na mesma época da falência do meu primeiro consultório, eu andava pensando em levantar um dinheiro para fazer um grande negócio junto com uns amigos, mas precisava de assessoria jurídica para dar andamento à coisa. Liguei para um renomado advogado que me indicaram e, na conversa inicial, quando eu esperava que ele se mostrasse ocupado e fosse o mais breve possível, forçando uma visita com hora marcada ao seu escritório, ele fez o seguinte comentário:

- Dr. Luís, eu estou absolutamente à sua disposição. Vamos tirar todas as suas dúvidas por telefone no tempo que for necessário. Depois, se o Sr. achar que é o caso, marca com seus sócios uma visita aqui no escritório.

Essa experiência me marcou profundamente. Como é que um advogado bem-estabelecido poderia ter tempo para dedicar a um moleque recém-formado que queria fazer um negócio maluco que, obviamente, deu em nada? Depois desse, foram mais três ou quatro telefonemas, sempre com a mais absoluta disponibilidade ou com breve retorno caso o advogado estivesse ocupado. Curiosamente, nunca o conheci pessoalmente e tampouco ele me cobrou um único centavo pela sua assessoria preliminar.
Mais tarde, após ter acumulado alguma experiência, pude perceber que ele usou a única ferramenta realmente eficaz para o sucesso profissional (além, é claro, da excelência técnica): a autenticidade. Até hoje é possível lembrar, no seu discurso, um interesse genuíno em me ajudar, orientar, tirar obstáculos, iluminar meu caminho - enfim, fazer o seu trabalho da melhor forma possível.
Trocando em miúdos, se você valoriza relógios e canetas sofisticadas, gosta de se vestir com apuro ou preza o design em seus objetos de trabalho, invista nisso, mas para o seu próprio prazer, nunca para impressionar seu interlocutor que, invariavelmente, vai estar muito mais concentrado no problema que o levou a te procurar do que na marca da sua camisa ou no tipo de papel do seu receituário.
Na sociedade atual, na qual, entre os livros mais vendidos, sempre estarão uma meia-dúzia cujo título começa com "Como" (como ficar rico, como enlouquecer um homem na cama, como virar chefe em um mês, como atingir a paz espiritual, como comer mais do que precisa e não engordar, como se casar, como se separar, como criar filhos bem-sucedidos, como ser mais feliz que seu vizinho, como isso, como aquilo...), querendo fazer crer que sucesso e realização pessoal possam ser alcançados seguindo uma simples receita, a lição aprendida com alguns telefonemas para um profissional de excelência foi bem mais proveitosa. E, para os mal-humorados que estão pensando "e daí, o que o advogado ganhou com isso?", podem saber que não foram poucos os clientes que recomendei ao seu escritório nesses anos. Sem cartãozinho de visita.


Capa de livro escolhida aleatoriamente no Google - muita gente ainda acredita nisso


9 comentários:

regi nat rock disse...

Sei bem do que fala Dotô.Também já fui vítima da "aparência" e hoje, não dou a mínima para isso e não tenho um pingo de paciencia com quem depende dela para aparecer e/ou ser identificado como o "bom/boa". Vale o conhecimento que agreguei ao longo dos anos e dos amigos, profissionais ou pessoais que conquistei. Eles são minha melhor "publicidade".

Luís Augusto disse...

Pois é, Regi, reafirmo o que disse no texto, o que importa é a autenticidade. Ninguém quer uma moeda falsa.

Anônimo disse...

Parabens pela iniciativa Doc. Como sempre, excelentes textos, claros e enriquecedores!

Parabens, mais uma vez!

Um abraco,

Leandro

Anônimo disse...

So um breve comentario: apesar de marketing nao dizer muito em um consultorio medico, ser atendido por um medico bem vestido, em um local agradavel, com outros pacientes aguardando e falando minimamente bem do medico, faz algum resultado. Nao determina nada, mas pode ajudar na avaliacao final, e mesmo no resultado, se pensarmos no efeito placebo. Agora, em um ponto voce tem total razao: se voce tem conteudo, o marketing e desnecessario; basta fazer seu trabalho. Mas isto voce ja sabe...

Abracos,

Leandro
ps: perdoe a falta de acentos, pois ainda nao consegui configurar meu cpu

Luís Augusto disse...

Leandro, que bom te "ver" por aqui! Não sei se vc se lembra, mas era um dos sócios do negócio maluco de que falei.

Breno Figueiredo Gomes disse...

Perfeito! Lembrando que o objetivo principal do marketing é satisfazer o cliente. Propaganda, aparência, consultório etc... são ferramentas de marketing que nada acrescentam se não houver autenticidade na conduta do profissional. O máximo que irão conseguir, isolados, é uma primeira consulta e nada mais.

Valentim Magalhães - Nutricionista disse...

Bom dia Dr. Gostaria de repostar seu texto, o Sr. autoriza? como gostaria de ser citado.

Att, Valentim

Luís Augusto disse...

Olá, pode usar como quiser

Diego disse...

Me parece que você está generalizando sua experiência negativa da mesma forma que os tais livros que você leu generalizaram uma suposta experiência positiva - objeto da sua crítica.